Às vezes tenho medo da morte. Às vezes, nem sempre.
Costumava pensar que não tinha medo de morrer, tinha medo da forma como a morte chegaria. Hoje também não tenho medo de morrer. Quer dizer, como é que posso ter medo de uma coisa da qual não vou ter consciência? Não tenho medo nenhum de morrer, tenho medo da morte. Tenho medo da ausência, tenho medo de ter que viver a vida nos moldes que desconheço. Como é que vou viver quando se forem as pessoas que fazem com que a minha vida seja como é? Como é que vou continuar a ser eu quando a minha vida já for outra?
Bom, mas a alimentar estas duvidas é que não vivo mesmo. Nem esta vida nem outra.
Vamos morrer. Vivemos distraídos deste facto e por isso nos angustiamos quando pensamos nele. Não vale a pena estar sempre a pensar nisso é verdade, mas é bom vivermos com essa consciência. É bom construirmos a nossa identidade assentes na certeza de que nós e aqueles que nos rodeiam um dia não vamos cá estar. Podemos ser nós a partir primeiro ou podem ser eles mas a vida, que é como quem diz as relações, não duram sempre...ou, a presença, tal como estamos habituados a ela, não dura sempre.
Se pensarmos que um dia vamos ter de viver sem os nossos pais, sem o nosso marido/mulher, sem os nossos companheiros, sem os nossos filhos, torna-se quase absurdo mas se nos distraírmos disto andamos a fugir de uma verdade que nos é intrínseca.
Então, estava aqui a pensar, e se a morte em vez de nos assustar nos fizesse viver melhor? Quer dizer, se vivessemos com esta consciência de que um dia, ou nós o outro já cá não vamos estar e que não sabemos quando é esse dia, secalhar isso ajudava-nos a ser mais verdadeiros em cada gesto, em cada palavra.