
recordando parte da peça de teatro que escrevi...
Avô:
A vida grita-me adeus.
É isto a velhice.
É o já só olhar para trás
porque é mais vasto o
caminho percorrido do que
o que temos pela frente.
Um dia acordas e perguntas:
“O que foi de mim?”
E dói mais a conjugação no passado
do que o sentimento da ausência.
O que em ti era sonho, projecto, desejo,
não é agora mais do que o leito seco
de um rio onde água já não corre.
[Pegando numa fotografia do seu filho]
Lembras-te quando te segurei na mão para
que desses os primeiros passos?
Querias soltar-te
mas o equilíbrio ainda não era certo.
Então seguravas-te a mim, com força, e...
[Pausa. Volta a colocar a fotografia do filho na mesa e vira-lhe as costas.]
Quantas vezes te esqueces que eu já fui como tu?!
Já a vida foi sonho e oportunidades.
Agora, que a estrada estreitou,
lembra-te que fui eu quem
seguiu à tua frente a desbravar o caminho que
agora percorres, reconhece o meu valor.
Não me deixes perder o orgulho e a dignidade.
Sabes que também eu já tive a vida na mão,
já julguei ter o controle de tudo,
e foi tão bom esse tempo...
já julguei ter o controle de tudo,
e foi tão bom esse tempo...
in: O Sotão do Tempo
imagem: promenor do flyer de divulgação da peça criado por Catarina Carreiras