terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Ainda antes de acabar o ano...


recordando parte da peça de teatro que escrevi...

Avô:

A vida grita-me adeus.
É isto a velhice.
É o já só olhar para trás
porque é mais vasto o
caminho percorrido do que
o que temos pela frente.
Um dia acordas e perguntas:
“O que foi de mim?”
E dói mais a conjugação no passado
do que o sentimento da ausência.
O que em ti era sonho, projecto, desejo,
não é agora mais do que o leito seco
de um rio onde água já não corre.

[Pegando numa fotografia do seu filho]

Lembras-te quando te segurei na mão para
que desses os primeiros passos?
Querias soltar-te
mas o equilíbrio ainda não era certo.
Então seguravas-te a mim, com força, e...

[Pausa. Volta a colocar a fotografia do filho na mesa e vira-lhe as costas.]

Quantas vezes te esqueces que eu já fui como tu?!
Já a vida foi sonho e oportunidades.
Agora, que a estrada estreitou,
lembra-te que fui eu quem
seguiu à tua frente a desbravar o caminho que
agora percorres, reconhece o meu valor.
Não me deixes perder o orgulho e a dignidade.
Sabes que também eu já tive a vida na mão,
já julguei ter o controle de tudo,
e foi tão bom esse tempo...
in: O Sotão do Tempo
imagem: promenor do flyer de divulgação da peça criado por Catarina Carreiras

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

FELIZ NATAL


Não é de agora...damos por nós e tudo nos deseja " Feliz Natal", desde o autocarro, ao banco, passando pelo saco de supermercado.

Mas o que é que é um Natal Feliz?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

RITMOS

"Aprende a conhecer o ritmo que governa os homens." Arquíloco, poeta da cidade de Paros, séc. VII a.C.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

CORPOS


Carrego este corpo que não sou eu porque sou muito mais do que ele mas estou enterrada, encarcerada como pinto num ovo.

Sigo como um prisioneiro, com toda a minha especialidade confundida na normalidade de um corpo que todos temos.

Onde está a expressão do que me corre nas veias?

Vejo carne e ossos e orgãos mas não vejo braços nem pernas nem abraços nem passos queridos, só uma cabeça perdida na vista de outros.

Puxo o fio deste peso que arrasto comigo mas parte-se porque a lã não suporta o que me prende e então já não sou eu nem o outro e o mundo não chega para me instalar.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

CHEIROS

Há cheiros que nos movem. Que nos levam mais longe do que muitos passos dados. Outros que nos prendem e amarram mais do que qualquer cegueira interior.

Os aromas têm uma capacidade enorme de nos despertar, de nos desinstalar e arrancar à normalidade do lugar que ocupamos. Lembram pessoas, vivências, espaços e tempos que já não temos. Ou que nunca tivemos.

É engraçado pensar que o olfacto é dos sentidos que passa mais despercebido mas que pode ter um efeito mais decisivo em nós. E é sempre Passado. Prende-nos pouco ao Presente e quase nunca nos leva ao Futuro.

DIAS CINZENTOS

Os Dias Cinzentos são mais criativos. Dá ideia que somos movidos a energia solar e, quando o Sol se enconde, nós escondemo-nos também! Abrandamos o ritmo. Falamos menos, fazemos menos...
É bom andar devagar. À chuva. É bom poder passar e olhar. Sem pressa. Sentir as cores, ouvir as nuvens, sentir o cheiro a castanhas. Ver rostos sempre diferentes e maravilhar-nos. Com rugas e lágrimas, com olhares e sorrisos.
os Dias Cinzentos são cheios de coisas vistas pela primeira vez. Coisas olhadas e tocadas por nós. Só hoje. Porque o Sol se escondeu.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

PODER NÃO DIZER

Muitas vezes se associa Espontaneidade e Verdade. Entendendo Espontaneidade como o que nos faz mostrar tudo o que nos vai dentro, o que nos faz exteriorizar os primeiros sentimentos e pensamentos, aqueles que surgem em nós sem avisar e que se partilha na intenção de se ser o mais verdadeiro possível.
Não quero acreditar que a minha Verdade seja aquilo que me vem à cabeça e ao coração. Não quero acreditar que eu sou isso.
Entendo por Verdade, aquilo que eu instalo na minha cabeça e no meu coração, ou seja, o resultado da acção da minha liberdade e da minha vontade sobre aquilo que me invade sem eu escolher.
Neste sentido, o poder não dizer é um poder que devemos valorizar! Principalmente nas relações mais próximas. Não é sequer possível que algum dia alguém nos veja na nossa completude, nem isso seria bom. É muito mais construtivo saber ter espaços em nós que são só nossos e que não precisamos de deitar janela fora. E é muito mais descansativo aceitar que também no outro, mesmo naquele que me é mais próximo, haja lugares que não são para mim. Parece-me este o caminho para Amar e não para Controlar nem querer fazer do outro propriedade minha.

Não estou a esconder-me, não estou a faltar à verdade quando não digo tudo o que penso ou sinto. "Mais vale querer o que se diz do que dizer o que se quer" . O que eu quero em mim, o que eu acolhi em liberdade, isso é aquilo que verdadeiramente sou e aí sím, posso discernir o que é pessoal e o que é para partilhar.
Neste sentido a Espontaneidade esconde a Verdade, mais do que a revela.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

AMIZADE

Estava a pensar como as nossas relações podem, inconscientemente, ser marcadas por uma estrutural falta de intimidade, de verdade, de transparência.
É mais ou menos óbvio que não se pode ter muitos amigos, já dizia o Aristóteles. A Amizade, no verdadeiro sentido do termo, implica tempo, implica investimento, implica abertura, disponibilidade e é humanamente impossível dar tudo isto a muita gente.
O desconcertante é quando percebemos que, nas relações que julgamos mais próximas às vezes falta-nos verdade, falta-nos mostrar sem medos o que vai dentro, falta mergulhar fundo no outro, falta abrir as portas todas e receber o outro em minha casa, sem medo de mostrar a cama por fazer.
Ser amigo dá trabalho, ter amigos dá trabalho. Mas nada é mais construtivo do que uma boa amizade!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

NORMALIDADE

Há sempre alturas em que parece que não se passa nada, em que a vida parece não ter grande interesse.É principalmente notório se pensarmos na quantidades de vezes que nos perguntam " Então e novidades?" e damos por nós sem nada para contar... É fácil mergulharmos no quotidiano, na vidinha sempre igual, entregarmo-nos às obrigações, sem criatividade, e deixarmo-nos levar por uma rotina nem boa nem má.
A verdade é que a vida não tem que ser sempre extraordinária. Não têm que estar sempre a acontecer coisas fantásticas, não tem que ser um drama.
Há realmente alturas em que a tranquilidade impera, em que não se passa nada de especial. Ainda bem, esperemos que seja ssim a maior parte do tempo! É por isso que podemos notar o especial. O nosso Sim à Vida tem que ser um Sim à normalidade. É preciso saber viver o dia-a-dia, é preciso que a rotina não prenda mas liberte, é preciso ser criativo e observador. Porque se quisermos mesmo novidade, é só estar atento, ao que nos rodeia mas também ao que nos vai dentro, porque a forma de olhar e de sentir pode ser sempre nova!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

SENTAR

No meio deste turbilhão do que sentimos e do que pensamos, a urgência da questão de perceber onde está a verdade de mim coloca-se quando estas duas partes entram em desacordo!
Não é assim tão estranho isto acontecer.Lembro-me do ditado popular, lembro-me duma epístola de s.Paulo...é muito comum haver conflito entre o que pensamos e o que sentimos, entre a razão e o coração, entre a mente e o corpo. E por um lado até é bom...desinstala-nos e obriga-nos a lutar pela unidade do nosso próprio Ser!

É muito mais difícil fazer o que pensamos do que fazer o que sentimos. A emoção, os desejos, os sentimentos, empurram-nos com mais força. Abanam-nos, tiram-nos o equilibrio e é muito fácil para nós seguirmos por essa porta que se escancara à nossa frente.
Os pensamentos são mais contidos. Dão-se a conhecer, revelam-se e acusam a sua presença, mas não parecem ter grandes preocupações persuasivas...

Quando percebemos a incompatibilidade destas duas vertentes, é muito importante parar, sentar e tomar consciência do que se passa cá dentro. Libertarmo-os de apetites, de facilitismos, de racionalidades excessivas e ganhar distância para procurar a Verdade, a minha verdade. Só assim podemos saber se queremos seguir a Razão ou o Coração.

O trabalho complica-se quando vejo claramente que a Verdade de mim está no que eu estou a pensar e não no que o sentimento me impele a fazer...para que isto não aconteça muitas vezes, parece-me importante a aposta diária num trabalho de auto-conhecimento e aceitação que nos permita unificar o que somos: sentir o que pensamos e pensar o que sentimos!

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

VER A VISTA

É tão fácil distraírmo-nos e não olharmos ao que se passa à nossa volta!
A Pessoa é um Universo tão vasto, tão rico, tão fascinante que fácilmente se basta a si própria e se perde em caminhos interiores. Isto não é mau. Parece-me até positivo que nos saibamos entreter connosco próprios e que dediquemos tempo e vontade a descobrirmo-nos e a surpreendermo-nos alegremente com o que somos e com tudo o que temos para dar.
Mas se for só assim vamos caír num poço muito fundo mas estreito e mais cedo ou mais tarde vamos sentir falta de alargar horizontes e desejos.


No outro dia estava a voltar para casa pela Marginal. Escolhi prepositadamente este caminho porque me aptecia aproveitar o Sol e disfrutar da vista fantástica.
Só dei pelo rio já tinha feito mais de metade do caminho!

domingo, 28 de setembro de 2008

BÓIAS

Interessa muito pensar a que é que nos agarramos, o que é que nos sustenta a vida, o que é que nos faz querer estar aqui. Nunca deixo de me espantar quando, em lugares e condições em que a vida é mais dura, encontro pessoas cujos olhos brilham e o sorriso é contagiante. É difícil de perceber como é que se pode ter vontade de viver, como é que se pode estar em acção de graças por este dom quando se está mergulhado em fome, em frio, em doença.
Fico a pensar quais são as minhas bóias. O que é que me mantém à tona quando o mar é agitado pelo desânimo, pela insegurança, pela falta de confiança, pela irrealidade do sonho. Por um lado não me parece seguro agarrarmo-nos a algo exterior a nós: pessoas, lugares, objectos...por outro lado é claro que não nos bastamos a nós próprios... É muito pouco aquilo que não nos podem tirar. É muito pouco aquilo que se mantém seguro como uma rocha apesar do passar do tempo e do espaço. Mas é fundamental que cada um saiba quais são as Bóias para que tem de nadar quando as forças estiverem a faltar!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

AMAR

Amar é tramado! Não o sentimento. O Verbo! Activo e não Passivo.
É que o sentimento não depende muito de nós. Mas o Amor parte absolutamente de uma decisão nossa e só pela nossa vontade pode subsistir.

Amar é dar a Vida ao Outro. Amar é dar a Vida pelo Outro.
O Amor não está sujeito à ondulação das disposições. O Amor não está preso a sentimentos ou desejos. O Amor afunda tudo o que nos trava o caminho, arranca de nós o Orgulho, o Egoísmo e tudo o que em nós não é liberdade. O Amor faz-nos levantar âncora e arriscar novos mares.
E é tramado porque dá trabalho! É preciso uma luta diária para que o nosso coração possa de facto libertar-se. É preciso querer todos os dias e educar a vontade para isso. É preciso que o crescimento do Eu seja sempre em função do crescimento do Nós. Mas a principal dureza está na insegurança, na perda de controlo sobre a própria vida. É que Amar é também pôr-se totalmente na mão do Outro, é abandonar-se, é confiar, é esquecer tudo o que é individual ( não o que é pessoal).

E é muito bom!! O Caminho! Porque a meta estará sempre por alcançar! Amar nunca é demais!

sábado, 20 de setembro de 2008

PENSAMENTOS


Já pensei que não somos o que sentimos. Ou que não somos o que sentimos sem querer.
Também não somos os pensamentos que nos assaltam sem avisar.
Quem é então o EU que domina sentimentos e pensamentos? Quem é a pessoa que quer ser Senhora da sua vida? O que é a nossa vida senão o que sentimos e o que pensamos?
Sim, estou um bocadinho às voltas...
Mas sei que quero ter domínio sobre os meus sentimentos, não quero desperdiçar emoções. Consequentemente quero tomar conta dos meus pensamentos e não me deixar levar para onde não quero.
Mas quem sou Eu, então, que ando aqui a gerir isto tudo, se não sou (só) o que sinto e o que penso?

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O Que é que se faz?

O que é que se faz quando és obrigada a repensar a certeza que já tens?
O que é que se faz quando voltas a pôr em causa todo o caminho que fizeste para chegar até aqui?
O que é que se faz quando te vês agarrada à torre de um castelo que ameaça ruír?
O que é que se faz?
O que é que se faz quando o sol que brilhava amanhã volta a ficar coberto pelas nuvens?
Quando a meta te é tirada do campo de visão e te arrancam o entusiasmo?
O que é que se faz quando és obrigada a continuar, a perseguir aquilo que queres mesmo assim?

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

PERMANECER

Há pessoas a quem tudo parece correr bem, e corre mesmo. São pessoas que têm a vida facilitada ou que sabem facilitar a vida. Fazem-nos acreditar que é possível e isso é bom mas às vezes tenho a sensação que vidas assim é só para alguns...
Fascino-me com exemplos de pessoas que têm vida vulgares, às vezes até vidas difíceis mas que permanecem e não desistem.
Não deixa de ser um Mistério mas continuo a reparar que é na dificuldade que crescemos. É na dificuldade, naquilo que não controlamos, no que nos custa, que nos descobrimos, a nós e aos outros, que desvendamos quem somos e podemos decidir-nos por aquilo que queremos ser.
E dá uma satisfação imensa quando no meio da tempestade nos mantemos firmes, seguramos o leme e continuamos caminho quando a vontade é fugir de novo para a margem.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

SISTEMA DIGESTIVO

Mais cedo ou mais tarde, por opção ou obrigados mas, em alguma altura, vamos ter que passar para o lugar do condutor, algum dia vamos ter que nos tornar titulares da nossa própria vida.
Vamos tomando decisões, abrindo caminho. Tiramos um curso, ou não, começamos a trabalhar, ganhamos independência económica...mas não é (só) isto que significa sermos donos da nossa vida.

É preciso acertar velocidades e evoluir por dentro à medida que se evolui por fora. É preciso perceber que mochila trazemos e o que trazemos na mochila. Saber o que temos, saber o que somos, saber o que podemos e o que queremos. É preciso saber quem é o "Eu", para além de sentimentos, pensamentos e apetites. É preciso que saibamos quem é que toma conta de tudo isto, quem é o titular deste ser que sou Eu.

E é preciso digerir. Parar e olhar para dentro. Conhecermo-nos e aceitarmo-nos. É preciso ir digerindo isto tudo. Porque somos seres dinâmicos, sempre a mudar, é bom que nunca nos instalemos na nossa própria imagem e nos habituemos a ir acompanhando as mudanças que vamos sofrendo mesmo sem darmos por isso.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

PARA SEMPRE

Para Sempre é muito tempo! O nosso ponto de vista não consegue imaginar nada que, elevado à eternidade, não se torne aborrecido e monótono. Talvez por isso se fale cada vez menos do "emprego para a vida" ou da "casa para a vida".
A fuga à rotina e à "normalidade" reflecte-se também, consequentemente, na fuga às decisões a longo prazo. Pode até ser bom não nos apegarmos demasiado às coisas e encará-las como efémeras que são mas na medida em que a nossa vida também é, ela mesma, finita.

É normal que nos seja difícil imaginar as maravilhas do céu ou os horrores do inferno porque não alcançamos verdadeiramente o que seja "eternamente"...talvez seja mesmo mais fácil acreditar que a vida é só isto que temos agora. De qualquer maneira não podemos desdenhar o "para sempre" da nossa vida terrena e os compromissos que nela assumimos.

COMPROMISSOS

Podem ser coisas pequenas, podem ser projectos grandes. podem ser connosco próprios ou podem ser com outros. Há para todos os gostos. Podemo-nos comprometer a levantarmo-nos todos os dias mal o despertador toque, podemos nos comprometer a partilhar a vida com alguém. Podemos nos comprometer a escrever regularmente num blogue...
E podemos falhar.

Falhamos porque somos seres imperfeitos. Falhamos porque ainda estamos a caminho do que queremos ser. Falhamos porque somos fracos mas depois até podemos crescer com o reconhecimento das nossas fraquezas.

Uma pessoa que se conhece bem, que reconhece dons e talentos, falhas e defeitos, fracassa menos vezes. Não porque seja mais perfeita, mas porque traça caminhos e define metas de acordo com o que é a sua realidade pessoal.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

MENTE

Às vezes parece que o mundo é pequeno de mais. Parece que toda a terra e todo o mar não chegam para nos albergar.

Hoje pensei: " Em caso de claustrofobia, use a Mente"

É que a mente humana é inesgotável!

Fascino-me com a capacidade que temos de compreender, de ver sempre mais longe, de inventar, de criar, de destruir barreiras. De ultrapassar o possível e o visível e voar para mundos sempre diferentes.

São libertadores estes momentos em que se rasga o olhar e penetramos mais longe no Mistério que nos rodeia.Então entusiasmamo-nos e continuamos a percorrer estradas que se abrem a nossa frente, corremos já, animados pelas nossas capacidades que nos fazem pensar sermos capazes de tudo. Mais uma pergunta, mais uma resposta, e outra, e outra, e outra....e de repente travamos em cima do abismo e deparamo-nos com um fosso intransponível...

E lá nos lembramos que somos só "relativos" em relação ao Absoluto...

SONHOS


Resistimos, adiamos o momento, disfarçamos, tentamos desviar-nos, fechamos os olhos e não queremos ver mas...às vezes tem mesmo de ser.

Todos temos sonhos, todos fazemos projectos, todos imaginamos o futuro e custa quando somos obrigados a arquivar os textos sem nunca chegarmos a publicar o livro.

Mas é mesmo assim. A vida obriga-nos a seguir por outro caminho, a por de lado vontades e desejos para que tudo possa correr em função de um Bem Maior.

É preciso saber bem onde queremos chegar e não nos distraírmos demasiado a encher a mochila com muitas coisas que depois secalhar vamos ter de deixar pelo caminho.

Juan Muñoz

"A veces tengo la impresion de que mi obra
reciente es sobre la espera, esperando algo que
podria no ocurrir jamas, por outro lado,
temiendo que ocurra, incluso deseando que
nunca pueda ocurrir.
Es como mantener la obra en ese estado que llamariamos deseo."
É por aqui que me distraio enquanto "cozinho" trabalhos para fechar o semestre... a matutar nesta frase que me ficou, escrita por um escultor cuja obra conheci agora no Guggenheim de Bilbao...
Confesso que ainda estou para o perceber...

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O PRÓXIMO

Estava a pensar que é mais fácil fazermo-nos próximos de quem queremos amar do que amarmos aqueles que já estão próximos de nós.

As assimetrias no mundo, a pobreza extrema, a fome, a miséria a que assistimos a par de mansões, carrões e férias em ilhas paradisíacas, fazem crescer em muitos corações a revolta, o ódio e o desejo de vingança. Mas é bonito ver como são também muito aqueles que, diante da Realidade, se deixam invadir por uma vontade grande de mudarem, de alterarem o rumo das coisas e deixarem marcas de fraternidade.

Gosto de descobrir exemplos de pessoas que se deixaram invadir por um desejo de servir, perante uma sociedade rica, desenvolvida, onde aparentemente nada falta. Há doenças que se camuflam na ignorância do próprio doente se reconhecer como tal. São as mais graves, parece-me.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

CONFIANÇA

Em mim. Nos Outros. Em Deus.
Faz-me falta um mergulho para o fundo do Mar.
Faz-me falta o abandono de criança nos braços do Pai.
Faz-me falta tirar o barco da praia e ir lançar as redes.
A desconfiança prende-nos.
Se não confiamos em nós, ficamos sempre fechados em medos.
Se não confiamos no outro estamos sempre em desiquilibrio.
Se não confiamos em Deus, nunca nos chegamos a libertar.

Nem sempre temos noção mas, a Confiança é o que nos move, o que nos faz voar mais longe.
É um caminho nem sempre fácil, o de crescer na Confiança. Demora tempo e exige cuidado para que esta planta nasca e se torne forte para que não tombe quando bate o vento.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

FEEL LIKE DANCING

Há dias assim, em que o corpo leve parece voar. Tiro os pés do chão e lá vou eu. Não para longe, porque hoje a realidade não me assusta e não tenho medo da vida. Quero dançar. Com o Sol que não quer ir e a Lua que demora a vir. Quero deixar passar o vento por entre os cabelos soltos e rodopiar como uma criança que exibe a saia vermelha.
Tiro os sapatos e sinto a areia quente a beijar-me os pés. Tiro a Roupa e embrulho-me nas ondas sem saber já distinguir o que é de mim e o que é delas. Rio às gargalhadas, simplesmente porque estou viva.
Não sei quem sou, não sei onde estou nem para onde vou mas nada disto me importa agora. Quero agarrar com paixão o lápis, não, a caneta, e escrever sem medo estas páguinas em branco que são o capítulo que me entregaste para completar o livro do mundo. O final é teu, já sei, mas hoje nada me tira a vontade de viver uma história bonita, cheia de cores, sons e aromas, porque hoje...I feel like dancing!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

CORAÇÕES

"Ó menina pare lá de mexer o café que nem lhe pôs açucar!"

Chegava-me um cheiro a bolo.

"Ai Maria...não acredito...vou saír daqui a rebolar!"

"Deixe-se lá de coisas e coma mas é uma fatia."

Serviu-me um pouco daquela delícia num prato banhado com uma lágrima que não conseguiu conter.

"Este era o que o meu Rui mais gostava..." disse para ninguém ouvir.

Rui era o único filho da Maria. Morreu debaixo de um tractor.

Tirei os olhos do café e sorri enquanto levava uma garfada de bolo à boca. Fixei Maria por uns instantes. Ela rapidamente voltava à normalidade, ainda mais despachada para disfarçar aquele desembrulhar do coração.


Fiquei a pensar que o que vemos de alguém é sempre uma máscara do que lá vai dentro. Que não há vidas sem sofrimento. Que o que nos diferencia não é o que somos mas o como somos e que a simplicidade mais do que um dom, é uma conquista!

segunda-feira, 9 de junho de 2008

PERGUNTAS


"Ó menina, afinal, é para isto que cá estamos não é...?" aquela interrogação final de quem pergunta mas nem pondera a possibilidade da resposta desarmou-me...

"É para isto que cá estamos."Não deixo de me espantar de cada vez que alguém me dá mostras de saber muito bem para que é a vida.Acho que de alguma maneira sinto uma inveja envergonhada por quem descobriu um sentido para todo isto...

"É Maria, é..." disse beijando-lhe a face. Para quê contrariar, para quê aprofundar...

Dão-me sempre segurança estes pensamentos que são terreno infértil para a semente da dúvida. Esta aceitação que deixa sentar na rocha segura de quem se permitiu descansar.
"A vida tem sentido" pensei eu enquanto cortava uma fatia de marmelada.

"Ai menina volte cá abaixo!!!Foi sempre isto, a gente fala-lhe e ela parece que não está cá! o que é que a menina tem na cabeça?"

Disse isto enquanto tirava a cafeteira do lume e a poisava na mesa. Acho que não queria resposta. Porque para se saber para que é que estamos aqui, é preciso não perguntar muito. E quando não se segura a mente e sai um ponto de interrogação...há que voltar rápido ao que interessa e nem esperar pelas respostas...para não deixar queimar as torradas nem transbordar o leite.

domingo, 8 de junho de 2008

DISCIPLINA

Gostava de acordar cedo.de cheirar a manhã. de ir ao ginásio. de apanhar sol. de andar mais a pé e aproveitar a vida na vila. gostava de fazer as coisas com tempo. de não deixar tudo para a última hora. gostava de ESTAR mais com os amigos. de ajudar mais em casa. de ESTAR mais para a família. gostava de todos os dias ter um tempo para ler. de todos os dias parar e escrever. de fotografar. de fazer o jantar. de estudar tudo o que devia. de ir às aulas todas. de não ceder à preguiça. de dormir 8h por noite e só dormir à noite. de passear com os sobrinhos. de ir a exposições. de não perder um espetáculo. gostava de explorar lisboa. de fazer voluntariado. de ter uma rotina. de ter um hobby com adrenalina.gostava de sentar-me comigo e com Ele todos os dias, de olhar a vida, de perceber o que se passa. de chorar o que dói. de me rir de mim. de simplesmente ouvir.

gosto de dormir até deshoras.gosto de noitadas.gosto de poder não ligar quando toca o despertador.gosto de passar a tarde sem fazer nada.gosto de não estudar porque não apetece.gosto de passar o dia na praia. de não ler nada do que tenho para ler.gosto de parar e olhar.sem pensar. gosto de calma, de ter tempo para tudo e não fazer nada.de não ter que definir prioridades, de ir ao sabor da maré.gosto de compras.gosto de dar presentes.gosto de fugas.
GOSTO??

Gosto de DISCERNIR.De perceber que não é a fazer tudo o que queremos na altura que queremos que somos felizes. Porque a certa altura já nem sabemos o que queremos nem se somos nós que o queremos.
Gosto de DISCERNIR. De perceber que tenho de me libertar de mim. que tenho de conquistar a minha razão e a minha sensibilidade.Que tenho de me fazer Pessoa.
Gosto de DISCERNIR.Conversas que doem, experiências que fazem rir mas nem sempre me levam mais longe.
Gosto de DISCERNIR.Para perceber o que sou, definir como quero ser e esbater cada vez mais as diferenças.
Gosto de ESCREVER.Porque me ajuda a perceber. me faz ver o que vai cá dentro, me mostra que a facilidade não é sinónimo de felicidade e não me deixa esquecer como quero morrer.

Porque a excepção sabe bem quando é excepção e perde a graça quando se faz regra.

terça-feira, 3 de junho de 2008

RESULTADO

És feliz quando um dia olhares para a realidade sem querer ver mais do que aquilo que ela te mostra. Quando ousares pores de parte a tua razão e aceitares não compreender tudo.

Encontrarás o que procuras quando aprenderes que uma árvore é só uma árvore que já está Iinteira na semente que te cabe na palma da mão e que a lua é só aquele brilho que ilumina a tua vida toda.

Descansarás em Paz quando puderes dizer para ti mesmo que o outro não é mais do que um barco na noite escura onde sabes que vai alguém e que és tu e só tu quem está sempre lá quando chamas por ele.

E quando um dia te puderes deitar na relva molhada, sentir o vento na cara e cheirar a primavera a chegar com um suspiro de quem entrega aquilo que não sabe...então podes estar certo de que realizas aquilo que és.

porque "é mais estranho que todas as estranhezas(...) que as coisas sejam realmente o que parecem ser e não haja nada que compreender."

( proposta: poesia de Alberto Caeiro)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O SOTÃO DO TEMPO

O sabor da Vida está no não sabermos o que vai ser de nós...
Em cada momento estamos a construír a casa em que vamos habitando...
Será que quando é colocada a última telha, quando olhamos para trás e vemos a obra feita, sabemos em Paz disfrutar do que preparámos para nós?

Escrevi uma peça de Teatro. Vai à cena nos dias 31 de Maio e 1 de Junho às 16h30 no Teatro Gil Vicente em Cascais.

A ideia é angariar fundos para ajudar as Irmãzinhas dos Pobres a reconstruírem o telhado da casa de Lisboa onde acolhem os idosos mais desfavorecidos da nossa sociedade.

O programa incluí um espectáculo de abertura, um leilão onde vão estar disponíveis peças de vários artistas, uma pequena peça escrita por Mafalda Pereira e outra peça, um bocadinho menos curta e que dá nome ao evento, escrita por mim.

Quem quiser ajudar...apite!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O ARTISTA

Cada pessoa vê a vida à sua maneira. Somos todos únicos e originais na forma de olhar o mundo mas nem todos somos artistas.
O Artista é aquele que não está preocupado em ver o que o rodeia, não está preocupado em agarrar a realidade, em mudá-la, em analisá-la ou interpretá-la. Um Artista é alguém que simplesmente se esvazia do seu Eu e se põe disponível para receber o que lhe é dado pela natureza, pelas pessoas, pela vida. E depois, cheio daquilo de que se fez parte, transborda sentimentos e emoções das mais diversas formas. E por isso cria. As marcas que a vida deixou nele.

Há um ditado oriental que diz que se queremos tomar nas mãos toda a areia de todo o deserto, temos que abri-las, deixar a areia passar por entre os dedos e assim senti-la toda, porque se fechamos as mãos com ganas de a agarrar, não sentiremos mais que uns míseros grãos de areia.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

"Senta e Sorri"

A procura do nosso lugar no mundo e na vida é uma constante. Questões fundamentais da nossa existência não se descobrem científicamente, não têm respostas matemáticas.
O que queremos é saber de nós, saber como é connosco, saber como viver bem a nossa vida, e a resposta só pode ser pessoal.

Estava a ouvir o testemunho de mais uma pessoa que se procurava. Esta, concretamente tinha posto a vida em "stand-by" enquanto fazia este caminho. Isto a mim não me faz sentido porque acho que a vida é a procura mas isso é outra conversa...

A certa altura, depois de correr mundo e de passar por muitas e diferentes experiências ( engraçado ver como o método experimental pegou!), a esta pessoa foi-lhe dito: "Senta-te e Sorri mas que até o teu fígado sorria!"

Foi um mestre indiano que era seguido por muitos que com ele queriam aprender a meditar. Ele não escrevia livros, não dizia regras nem teóricas nem práticas. " Se queres meditar, senta-te e sorri e verás como aos poucos vais ver melhoras na tua vida!"

Na nossa sociedade ocidental acho que ninguém lhe ia ligar menhuma, principalmente pela parte do aos poucos que bate de frente com as nossas "necessidades" imediatas mas eu fiquei-me com esta!

SENTA-TE E SORRI!

terça-feira, 20 de maio de 2008

FELICIDADE


Acho que é unânime que o que o Homem quer, é ser feliz. O que já não será tão universal é o que cada um entende por Felicidade.
Pessoalmente todos sabemos o que queremos da nossa vida. Uns mais claramente que outros. Nem sempre nos é fácil definir concretamente o que entendemos por felicidade.
Curiosamente, é nas sociedades ditas mais desenvolvidas, em que as populações têm muitas facilidades a nível económico, de satisfação de necessidades básicas,de deslocações, de comunicações, que mais dificilmente ouvimos alguém dizer: " Sou Feliz!"
Normalmente temos ideia que fomos felizes naquela altura, naquele lugar, ou que seremos felizes quando tivermos isto ou aquilo, quando formos desta ou daquela maneira. Parece que nos é dificil reconhecer a felicidade quando a alcançamos e que precisamos da distância temporal para a ver.
No outro dia pensei: " Será isto a felicidade?" Com todas as dificuldades por que passo, com todas as discussões, os desentendimentos, as faltas de amor. Com tudo o que ainda quero alcançar, com as limitações que nem sempre me permitem lá chegar... Será isto a Felicidade?

Fiquei a pensar no que é que é para mim a Felicidade. Não uma definição teórica ou generalista. Não um sinónimo simples e universal mas para mim, Marta, com o que sou, com que é a minha realidade...

Acho que a Felicidade é um dom que precisa de ser acolhido e que tantas vezes o deixamos fugir porque estamos demasiado agarrados a conceitos pré-concebidos, a ilusões, a expectativas irreais que não nos permitem reconhecer a Felicidade no Agora.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

RENÚNCIA


Hoje estáva a pensar que a palavra escolha não devia ser ensinada às crianças. Acho que se fossemos avisados de que temos que fazer renúncias eramos muito mais felizes!

Não quero nada parecer negativa mas a verdade é que há muito a ideia de que como somos livres podemos escolher e isso é a coisa melhor que temos e a grandeza da situação humana.

Esta ideiaparece-me totalmente errada. Não sou livre se posso escolher entre diferentes "coisas", sou livre se puder escolher os próprios critérios da minha escolha!
Escolher, só por si, não é uma expressão da minha liberdade, esta depende das razões pelas quais escolho, logo aí, o podermos escolher não é, sem mais, fantástico.

Além de que, escolher implica sempre uma renuncia, quer dizer que não posso ter tudo, é mais uma manifestação da minha limitação como humano.

Pode parecer desanimador mas se em vez de pensarmos que vamos escolher, pensarmos que vamos renunciar, pode ter no fim resultados mais positivos.
Primeiro porque não vamos à partida atrás do que simplesmente nos apetece, e nesse sentido estamos a ganhar liberdade nos próprios critérios da escolha, e depois porque evita muitas frustrações.

Pensar a opção mais como uma renuncia do que como uma escolha, pode ajudar-nos a crescer, a perceber desde cedo que temos que abdicar de muitas coisas boas, porque é quando temos que decidir esntre dois bens que a questão se coloca mais intensamente...aliás, é aí, nessas decisões mais difíceis mas também mais fundamentais que percebemos que de facto escolher é renunciar.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Aprendendo com os outros...


"A qualidade da nossa vida depende, queiramos ou não, da qualidade dos nossos pensamentos."

Esta frase com que o meu amigo Francisco inicia o último post do seu blog, tem mudado a minha
vida. Não é uma grande novidade, já me têm dito isto, mas a forma clara com que o Francisco o passou para uma simples frase fez com que mais fácilmente pudesse ter presente esta máxima que não se deve esquecer. E entrei mesmo num caminho de mudança, de crescimento interior.

Há alturas em que é difícil. Aliás, acho que é muito mais fácil escrever drama do que comédia, fazer chorar do que fazer rir, isto também na nossa vda , connosco próprios. Mas uma coisa é ir ao teatro, outra coisa é viver sempre "na mó de baixo", ninguém aguenta!!

No desenrolar do dia muita coisa acontece, no interior e no exterior. O que fazemos, o que dizemos, o que ouvimos, as pessoas com quem nos cruzamos. O que sentimos, o que escondemos, o que fomos e o que deixámos de ser. Tudo isto nos interpela de diferentes formas mas se queremos chegar ao fim do dia e ter o saldo positivo, claramente temos que ter pensamento positivo.

Na vida em geral, claro. Saber que vale a pena, ter um rumo a seguir, acreditar que a (nossa)história tem um final feliz, mas também nas coisas mais pequeninas. Acontece-me qualquer coisa que desperta em mim sentimentos e pensamentos negativos. Pode ser tristeza, vergonha, irritação...

PÁRA: Para ver com tempo e clareza
ESCUTA: O coração, os outros, a vida
OLHA: de novo, com confiança, já com os olhos da Esperança e da Alegria

Mas lá está...como tudo, isto implica tempo e disponibilidade, não só para os outros mas para mim também.

( blog do Francsico: www.sudamericalive.blogspot.com)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

MORENA

Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não...mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

(...)

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

(...)

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei... mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo,
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena!

Guerra Junqueiro
A Musa em Férias


Só porque acho graça a isto...será por ser Morena? hehe

PRECALÇOS

Os gregos pensavam a vida como um combate, um lugar à partida hostíl, que era preciso conquistar para se tornar habitável. Esta é uma visão muito diferente da que temos hoje em dia, principalmente no mundo ocidental.
Hoje temos a convicção de que a vida é fácil, ou devia ser, e se não é, algo está mal e já estamos a refilar! Também pode acontecer o contrário e instalarmo-nos no dramazinho.

Eu sou uma daquelas pessoas que tem a sorte de ser mimada pela vida. Sou uma daquelas pessoas que estava convencida de que a vida é para ser fácil e boa. Tive até alturas que não percebia como se podia gostar de viver, ter razões para acordar em cada manhã, quando se vive rodeado de fome, guerra, doença.

Hoje já aprendi que " a vida não é fácil e isso não é mau."Tomei consciência de que é um Mistério mas de facto o sofrimento faz-nos crescer, as contrariedades desinstalam-nos, as dificuldades fortalecem-nos. Com isto não quero dizer que devamos procurar sofrimentos, tenho a vida facilitada e agradeço por isso, mas se não queremos ficar pela mediocridade de uma existência desinteressada e desinteressante, vamo-nos sempre deparar com obstáculos e então vamos poder crescer!

terça-feira, 13 de maio de 2008

CRESCER

Acho que uma vida boa é uma vida dinâmica, que não pára, que está sempre a ser repensada e pronta para mudar, para melhorar. Mas há sempre pilares que uma vez definidos devem ser conservados. Há o que somos, no mais íntimo de nós que deve ir sendo cada vez mais descoberto por nós próprios e sobretudo aceite, respeitado mais do que violentado. E aquelas duas ou três cordas a que nos agarramos, que nos sustentam e que devem ser sempre as mesmas. Podemos ir tratando delas, mantendo-as fortes e seguras, podemos até as ir pintando de cores diferentes porque a vida é um arco - íris, mas não convém que estejamos sempre a mudar de apoios prque se não, quando nos quisermos agarrar podemos correr o risco de já não saber a quê!

Claro que este processo é constante porque somos acima de tudo seres dinâmicos, mas há uma altura da nossa vida em que se torna mais óbvio. Há uma altura em que temos mesmo que pegar "o touro de caras". Passada a fase da definição do tabuleiro de jogo, é preciso tomar consciência dos dados que nos saíram. É preciso perceber bem quais são os nossos pilares, sobre o quê é que construímos a nossa casa. Ver o que é definitivo e inalterável, o que é único e definitório. Conhecermo-nos e Aceitarmo-nos.

Este proceso já pode, só por si ser duro porque implica um "caír na real", um deparar-se consigo mesmo, o que muitas vezes pode não corresponder àquilo que pensámos ser e muito menos àquilo que queremos ser.
Passo seguinte, não menos difícil, definir rumos e, fundamental, definir estratégias, pontos muito concretos que nos permitam dar passos na direcção de nós, que nos permitam crescer por dentro rumo ao Alto, sem nunca nos contentarmos ou desistirmos.

Parece-me que o início do caminho, o salto primeiro em direcção à maturidade é o mais doloroso mas depois...é ter presente que é o caminho de uma vida e que tem de ser percorrido todos os dias!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

EXPECTATIVAS


De alguma forma é nisto que assenta a nossa vida. Tem a ver com a nossa tensão para o futuro, com o que nos move. Acho que as expectativas é das coisas difíceis de gerir. É bom sonhar, desejar, esperar. É bom fazer projectos e aguardar resultados mas as expectativas...

As expectativas que se criam muitas vezes não assentam na realidade, nem na nossa nem na do outro. Corremos o risco de jogar num tabuleiro imaginário, de esperar o que não pode vir.
E é tão duro quando tudo nos sai às avessas do que tinhamos pensado. Quando o outro afinal é mesmo o outro e não o que eu queria que ele fosse. Quando eu afinal sou mesmo eu e não o que queria ser.

É me mesmo difícil gerir estas expectativas que saem furadas. Fico a dançar na corda bamba entre egoísmo e altruísmo sem saber para que lado tender. Sem saber que caminho me faz crescer, a mim e ao outro. É um equilibrio difícil este de sonhar o real, de esperar o possível mas mesmo assim desbravar atalhos que podem ser sempre de novo descobertos.

domingo, 11 de maio de 2008

GRITO CALADO

E depois há dias assim, em que as cores são demasiado fortes, em que todo o som é ruído. Fugimos para a toca, voltamos a prendermo-nos já depois de nos termos soltado porque afinal a liberdade é demasiado cara.
O que fazer com tantas emoções, com tantas contradições, com tanta ventania que sopra cá dentro e dessarruma tudo o que tento sempre manter em ordem?
Talvez parar de pensar como sou, como quero ser, como ainda não sou. Já nem quero saber "comos" nem "porquês". Parem de me querer perceber, de querer que eu me perceba.
Não sei. Não sei porque de repente me calo. Não sei porque antes sorria e queria e agora já não.
É assim. É esperar que passe.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Está mesmo bem visto!

"Parece um paradoxo e é uma grande verdade: duas pessoas só crescem em intimidade na medida em que respeitam a sua solidão e a solidão do outro. A solidão é o espaço em que cada um se prepara para receber o outro e se dispõe a dar-se ao outro. Sem solidão, a intimidade é invasão."


in: Não há soluções há caminhos, Vasco P.Magalhães, sj

quinta-feira, 1 de maio de 2008

ABRAÇO



Gostei desta imagem! Não sei porquê mas de repente foi uma boa inspiração para escrever! (Escrevi mesmo pouco em Abril!)

Tenho estado a estudar Kant. A moral Kantiana é no minimo curiosa. Sabendo que Kant é um autor cristão e tentando compreender dentro do contexto social e pessoal aonde ele queria chegar, fiquei a pensar se não terá ficado pela metade na compreensão da mensagem de Cristo.

Cristo não me manda lutar contra a minha sensibilidade e as minhas inclinações para, fria e racionalmente, ser capaz de cumprir deveres. Cristo não me dá uma tábua cheia de regras que devo seguir para vir a ser merecedora da felicidade em outra vida e não nesta.

Cristo sabe muito bem que nós somos um ser complexo, com corpo e alma, razão e sensibilidade, inclinações e desejos e que é muitas vezes dificil, para a nossa vontade, na hora de agir, encontrar acordo entre estas vertentes tantas vezes opostas. Sabe que somos seres marcados pelo amor-de-si e que isso nos determina.

A grande novidade que Cristo nos mostra é que o truque, a realização da vida, a felicidade, aquilo que perseguimos porque nos amamos a nós próprios, é encontrado quando saímos de nós, quando nos abrimos à descoberta do outro. O que pode ser estranho é que precisamos saír para voltar a entrar.

Esta é para mim a maravilha antropológica que tenho vindo a descobrir no maior mandamento da lei de Deus: AMA O PRÓXIMO COMO A TI MESMO.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

AMAR PARA VER




"Todos os dias a via passar. De manhã ou à tarde. Às vezes à noite. Vinha a sorrir ou ia de cara fechada. Passava arranjada ou como quem não quer nada. Nunca lhe consegui encontrar um padrão. Nunca soube a que horas viria, só sabia que a via e a espera constante do coração dava sentido àquele estúpido emprego que me obrigava a ficar 16horas por dia parado no mesmo sitio.
Tantas vezes me olhou com aqueles olhos só dela mas não sei se alguma vez me viu. Sorri-lhe para esconder o tremor que me invadia de cada vez que a via.
Sonhava acordado. Quem seria? Gostava daqui ou queria saír? Andava sozinha...alimentava a minha esperança. Em quem acreditaria?
Tantas vezes pensei nos gostos que partilharíamos, nos caminhos que me levaria a percorrer...para onde seguiria?"

É bonito perceber como o Amor nos faz olhar o outro e vê-lo como uma realidade única, um romance inacabado, um mistério que tem sempre mais que desvendar.

terça-feira, 22 de abril de 2008

SABER ESPERAR


Na vida estamos sempre à espera. Pode ser do comboio, do jantar, do ordenado. Pode ser dum amigo que demora, de um filho que se traz dentro. Há esperas curtas e esperas mais longas mas, normalmente, dependem de algo exterior e, por isso, temos de esperar.

Mas há esperas estruturais, que nos definem. É aquilo de que abrimos mão no Agora em função do Bem Maior que...esperamos!
É bonito acolher esta renúncia no coração e educar-nos na docilidade ao Tempo que é eterno.
O Agora é efémero e quando escolhemos, por amor, prescindir deste "já" que temos pela Esperança no Futuro que (ainda) não nos pertence, então o mundo abre-se e torna-se grande. Já não é nosso só o que somos mas também a construção do que queremos ser. E se sonhamos com Mais, então vale a pena esperar!!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Um bocadinho de mim...


Amanhã faço anos.Não muitos. Sempre gostei imenso de fazer anos. Ainda gosto. Mas este ano está a ser diferente. Está a chover. O ano passado estava com o Sol, o Mar e a Serra na minha praia. Por dentro o tempo também não está estável. Tem sido assim já há uns dias...não faz sol nem chuva, não está calor nem frio. Há alturas assim, em que parece que não há disposições que me movam. A unica cor é o cinzento mas esta até já se tornou numa companhia agradável, talvez até a única que me apetece. O Silêncio está bom de se ouvir ( noto que também aqui já não escrevia há quase 1semana...).

Normalmente nesta altura agradeço especialmente o dom da (minha) vida. Este ano não é excepção. Mas agora tenho que aprender a reconhecer verdadeiramente que a Vida é um dom. Um presente bom. Um presente especial. Recebi-o sem porquê mas também não o pude recusar. Não se recusam presentes. A particularidade é que este presente não só é intransmissível como não pode ser deixado esquecido no fundo de um armário. Temos que o usar. Como não tem instruções e não percebemos bem para que serve...podemos usálo como a nossa imaginação quiser. O importante é fazê-lo crescer, dár-lhe utilidade e partilhá-lo.No Fundo...Disfrutar!

quinta-feira, 10 de abril de 2008

SER QUEM SE QUER


A grandeza do ser humano assenta na possibilidade de se ir fazendo.Como uma obra de arte que é completada pelo olhar de cada observador. Somos seres vivos, animais, como tantos outros, mas o que faz de nós seres humanos é o "ir sendo".

É originário o conhecimento que temos de nós próprios, sabemos muito bem quem somos. Mas qual é, de facto, o conteúdo da preposição "Eu sou eu", quem é este Eu que tão bem conheço?
O Mistério está precisamente aqui: "trabalhador", "fiel", "orgulhoso"...nenhuma característica é verdadeiramente definitória de um sujeito porque podemos sempre mudar.

É certo que nascemos à partida com determinados "trunfos na manga", cada um com os seus dons. Temos características positivas e outras não tanto, mas o que de facto nos define são as nossas possibilidades.

É bom quando encontramos pessoas que sabem muito bem quem são. Sabem bem as suas características, aceitam-se tal e qual como são. Isto não quer dizer que sejam pessoas conformadas, mas sabendo que o maior dom que têm é serem aquilo que querem ser...desenham o mapa e põem-se ao caminho!

segunda-feira, 7 de abril de 2008

SIMPLESMENTE ESTAR

Pessoas a ir, a vir, a chegar e a partir. Pessoas que falam, que gritam, que exigem. Pessoas que trabalham, que não param e têm sempre tanto para fazer. Pessoas que estão?
Acho que muitas vezes nos impomos escapes que nos permitam não encarar o constragimento do silêncio, do "não saber o que dizer", de olhar nos olhos. Parar e ficar pode não ser fácil. Saltar muros, quebrar distâncias e fazermo-nos perto para podermos simplesmente estar, é algo que se aprende...estando.

Implica estar disponível para olhar para fora,ter atenção ao outro para ouvir mais do que as suas palavras. Nem sempre o fazemos e muitas vezes é mesmo preciso que "gritem" por nós para desviarmos o olhar daquilo que somos e atentarmos ao que nos rodeia, como quem olha para um Mistério que pode sempre ser mais desvendado.

São momentos grandes quando podemos assistir a um coração que se abre, quando somos o abrigo que acolhe a intimidade do outro. Compreendemos o que verdadeiramente somos, pequeninos. Porque nem precisamos de falar, basta estarmos para sermos instrumentos da verdadeira Presença que ampara.

domingo, 6 de abril de 2008

SAÍR DE SI


Perceber que a vida é uma jornada com um princípio definido e um termo por definir. Perceber que temos na mão o papel e a caneta com que desenhar o mapa que queremos seguir, é muito bom!
Depois percebemos que há Alguém que nos dá o que precisamos para percorrer este caminho, Alguém que faz o caminho connosco. É bom, mas pode não ser óbvio à partida o quanto este caminhar de mão dada com outro pode ser libertador.
É um grande Mistério, mas é sem dúvida o segredo para uma maximização da existência.
Não sei porquê mas...vale a pena experimentar...até para me dizerem se se confirma ou não...é pelo serviço que se alcança a Alegria?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

SAUDADES DE AMOR

Nunca te escrevi, nunca soube o que te dizer. Nunca te senti.
Nunca soube por onde tecer aquele pano fino que nos cobre quando amamos,
Quando nas mãos tomamos por nosso um coração que é de outro,
desse outro que não conhecemos mas que nos dá o que procuramos quando, sem querer, perdemos o que nos prende aqui, o Amor.

O Amor que nos invade, que nos arranca a pele num grito intimo que sofoca.
Esta sede que nos amarra à fonte da àgua corrente que sabemos existir mas para lá não temos por onde ir.
Porque estamos evadidos, libertos do que nos suporta.
Não sabemos como refazer as linhas finas de que um dia nos soltámos, sem sabermos que fugíamos daquilo que por força perseguíamos: O Amor.

terça-feira, 1 de abril de 2008

ROTINA

É engraçado como já me revoltei contra a repetição imposta de actos que sempre me pareciam entediantes. Como recusei a minha boa vontade no desempenho de tarefas só porque não tinha escolhido fazê-las.

Acho que é normal...Há sempre um desejo de ócio que de vez em quando se manifesta de forma mais aguda. Já dizia o Pessoa: " Que bom ter um livro para ler e não o fazer". Parece que somos mais livres se pudermos fazer o que nos aptece, ou quando nos aptece.

Grande reviravolta!

Quando um dia percebi que a rotina liberta! Pode ser de mim...sempre com a cabeça longe, é fundamental ter alguma coisa que me prenda à terra e não me deixe perder o rumo. Mas acho que tendencialmente não somos seres constantes, os nossos desejos não são ordenados e os apetites não são todos para serem satisfeitos...se queremos ser nós a ter mão neles e não o contrário.

Quando um dia percebemos que a vida só o é na medida em que a vivemos e que nos cabe a nós decidir como a vivemos, então compreendemos que somos muito limitados, que nos é dado um jogo à partida e não fomos nós que escolhemos as cartas.

Opções: ou nos "revoltamos contra o sistema", atiramos as cartas para a mesa e ficamos a ver, ou tiramos o melhor partido do que temos e jogamos para ganhar.

Para isso é preciso estratégia. Rumo bem definido, passos bem calculados, disciplina, método...no fundo, uma rotina que mantenha o ritmo do jogo. Depois, claro, humor, jogo de cintura e uma boa dose de risco porque o jogo é para ser divertido...como a vida!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Ainda me queres?

Ainda me queres quando Te neguei repetidas vezes?
Ainda me queres mesmo sabendo que me vou,tantas vezes, apartar de Ti?
QuisesTe-me desde toda a eternidade mas eu escondo-me e fingo não Te conhecer.
Ainda me queres mesmo assim?
PensasTe-me, criasTe-me para Ti, e eu escolho, tantas vezes, o que não é Teu, persigo tantas vezes o que sei que não queres.
Ainda me queres?
Mesmo quando Te recuso um sorriso, quando me fecho sem Te deixar entrar, quando Te nego a minha mão sabendo que me estendes a Tua.
Ainda me queres?
Quando Te faço promessas vãs de perfeição que sei, que Tu sabes que não vou cumprir. quando, afirmo o Teu amor e confio mais na minha soberba.
Ainda me queres mesmo assim?
“CriasTe-me para Vós e sei que o meu coração não vai descansar enquanto não repousar em Vós”, mas prefiro uma existência inquieta à surpresa do encontro.
Ainda me queres?


Quero.
Quero-te ontem, hoje, sempre.
Quero-te com o mesmo amor com que te queria quando te pensei e criei.
Posso esperar por ti toda a eternidade. Quero-te livre e quem sabe quando me irás dar a tua liberdade...?
Mas quero-te!
E tu? Queres-Me?

quinta-feira, 27 de março de 2008

ARRUMAR A CASA

É difícil perceber que há um espaço em ti que não posso ocupar, que há um tempo em ti que não posso partilhar. É duro saber que não posso estar sempre.

Dou um passo em frente quando aprendo que nada disto quer dizer distância, que continuamos a seguir pela mesma estrada e que a meta traçada ainda nos espera. Aos dois.

Vejo mais longe quando compreendo que o caminho deixou de ser individual mas continua a ser pessoal. Construímos uma só casa mas são dois os corações que nela se empenham. E é preciso manter a casa arrumada, a nossa, mas também a tua e a minha.

Sei agora que tu também tens dias assim. Não sei bem o que são para ti, mas sei que, como eu, também tens uma casa para arrumar e que para isso precisas de tempo e espaço, para depois me deixares entrar, cada vez mais e mais.

quarta-feira, 26 de março de 2008

ATÉ ONDE?

Até onde nos vai levar o que somos, o que temos? Até onde nos vai levar o que sonhamos, o que esperamos? Até onde nos vai levar o que queremos e desejamos?
Até onde queremos ir? Onde queremos chegar?

Estamos iludidos se pensamos que temos de saber do mundo e da vida e nos esquecemos de saber de nós. O exterior descobre-se cá dentro, porque real é o que é para mim, é o espaço onde se desenrola a minha vida.

É pretensioso se julgamos que podemos conhecer o outro, que podemos chegar ao fundo de si. E é assustador quando admitimos que nem aquele que nos está mais próximo poderemos algum dia conhecer na sua essência.

Mas posso tentar chegar ao fundo de mim e ajudar o outro a encontrar-se no âmago de si. Sem querer conquistá-lo, sem pretender compreender tudo, simplesmente levá-lo a fazer caminho para ser o melhor que pode ser.

"Prazos de entrega" é coisa que aqui não entra. Porque nunca uma pessoa vai ser uma encomenda pronta para ser entregue e desembrulhada. É a história de uma vida que só vai estar verdadeiramente concluída quando regressar à casa de onde veio.
Até lá, é tempo de dançar à chuva, de mãos dadas com a eternidade que nos (a)guarda.

Tempo que não é estanque, que não pode nem deve ser absolutizado. "Nunca" e "Sempre" podem ser cordas que nos atam os pés e dificultam os passos porque fecham a possibilidade mais elementar mas mais fundamental da vida: a musica pode sempre ser outra!

terça-feira, 25 de março de 2008

"Bem - Aventurados os que se sabem rir de si próprios..."

"...porque nunca acabarão de se rir!" Vasco Pinto Magalhães, sj

Há pessoas, conversas, silêncios, partilhas que nos empurram para a frente e de repente parece que avançamos num momento mais do que esperávamos.

Ás vezes damos por nós e percebemos que estamos parados ou que nos cansamos a andar em círculos. Podemos até ter-nos desviado do caminho, ter, na encruzilhada, escolhido o trilho errado.

É bom ir tendo tempos de paragem para se "faz contas à vida" e quando percebemos que não estamos a lucrar tanto quanto é possível, podemos desesperar, desacreditar, desistir de seguir o mais, o Bem Maior. Este é o caminho mais fácil. Declarar falência e viver à sombra do fundo de desemprego, conformados com uma sobrevivência que já não se espera melhor.

Ou podemos dar uma valente GARGALHADA! Vemos que estávamos completamente enganados, que apostamos no cavalo errado e temos que nos rir porque, afinal, tantas certezas, tanta confiança, tanta segurança nas próprias decisões e...a saída não era por aqui!

Só dá mesmo para rir e...voltar por outro caminho!

segunda-feira, 24 de março de 2008

TUDO OU NADA

Quantas vezes não somos assim, homens e mulheres de extremos. Só nos contentamos com tudo, ou já nem isso nos contenta.

São grandes as espectativas que temos, em relação à vida, ao mundo, às pessoas e isso é bom. É bom sonhar, querer sempre mais, mas é melhor ainda perceber que o ideal não é algo que esteja algures escondido à espera de ser encontrado. Aquilo que ambicionamos, o que desejamos mais, tem que ser por nós conquistado, muitas vezes até criado. Esse mundo perfeito que reclamamos, a relação exemplar que ambicionamos, o que quer que seja que queiramos para que a nossa vida seja o melhor que pode ser, implica sempre um caminho a percorrer, é um processo dinâmico em que temos nós que marcar o ritmo da dança.

A vida define-se no Amor. É esta capacidade de amar e ser amado que lhe confere sentido. Só pelo Amor a vida se realiza plenamente. O Amor torna possível e justifica tudo o resto. E o Amor é difícil!! Não pode ser um tudo ou nada. O Amor é uma estrada que se percorre a dois, num constante acertar de ritmos, porque não se quer ganhar mas chegar junto. Implica muita paciência porque cada passo deve ser dado com tudo o que se é e com tudo o que já se conquistou e sempre com muito cuidado para não caír nos buracos. Os tropeços, os cansaços, o sol ou a chuva, nada disso é significativo se cada um tiver como prioridade na vida tornar mais fácil para o outro este caminho que é a dois.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Esta Decisão de (TE) Amar

Não sei bem quando foi o começo. Não importa. Sei que foi crescendo, que foste crescendo em mim. Da cabeça passaste ao coração. Primeiro ficaste só à entrada, não estávamos prontos ainda. Foste-te mostrando, fui-me dando. Acho que te instalaste primeiro na sensação, a razão foi mais dificil de convencer. A tua mais do que a minha. Fomos deixando caír máscaras, fomos gostando cada vez mais do que víamos. O sentimento era cada vez maior mas não queriamos mergulhar sem ver o fundo e esperámos. Sentados na praia, a ver as ondas, fomo-nos percebendo, fomo-nos moldando e descobrimos que o encaixe podia ser perfeito. Tomámos coragem e saltámos. Não como um salto no escuro, mas um salto no infinito que nos acolhe.

Vieram os precalços. Percebemos que o caminho a dois não é mais fácil, que as dificuldades, as fraquezas, nós, continuamos o que sempre fomos, a diferença é que agora temos uma mão que nos levanta quando caímos, uma boca que nos beija quando nos magoamos, um colo para onde correr quando o mundo é demasiado hostíl.

Percebemos que o sentimento pode ir assim como veio e que, se queriamos um porto seguro onde ancorar, teríamos que decidir. Permanecer, Amar, Ajudar a crescer mesmo quando não se sente ou a disposição não é essa.

Agora sabemos, mesmo quando dói, mesmo quando parece que parámos, mesmo quando está nevoeiro, sabemos que estrada seguir. Decidimos Amar.

terça-feira, 18 de março de 2008

DAR E RECEBER

Saber dar. Não do que nos sobra, mas do que o outro precisa. Não o que queremos, mas o que o outro nos pede. Dar. Oferecer com a vida. Retribuír o que nos foi oferecido, porque nada é nosso.
Dar com vontade mas sem esperar. Dar do que se é, não só do que se tem.

Aprender a Receber. Pode ser ainda mais difícil. Acolher o que nos é dado, reconhecer que não temos tudo, que não somos tudo e precisamos do que nos dão. Saber dizer obrigada, simplesmente, sem orgulhos que desdenham o que vem, nem falsas modéstias que fingem não merecer.

Dar e Receber é a dinâmica onde se desenrola a vida. Implica um mergulho profundo no conhecimento de si. Implica uma vivência da Humildade verdadeira, aquela que nos faz reconhecer na nossa totalidade, na complexa malha de luz e sombra. Humildade que nos faz ver a beleza do que somos.
É preciso sabermo-nos Ouro, para podermos Dar de nós, mas perceber que estamos no fundo de um vaso e precisamos das mãos de outros para escavarem a terra e descobrirem o brilho. Então aprendemos a receber.

segunda-feira, 17 de março de 2008

APRENDER A PINTAR

Há alturas assim. Em que os dias não são mais do que cinzentos. Pode não chover nem trovejar, pode o mar estar calmo, e tranquilo o navegar, mas não tem brilho.
Podemos até reconhecer as cores do mundo, o azul do Céu e o vermelho das Rosas mas tudo isto deixa de importar quando a realidade, aquela que é nossa, não tem charme.
Pairamos por aqui. Nem perdidos, talvez, mas cada passo é dado sem valor, seguimos o rumo traçado mais por rotina do que por convicção.

Bons Dias estes! É tempo de permanecer, de aprender a fidelidade. É tempo de perceber, de crescer. Embora possa não parecer, opção há sempre. É a tal liberdade de que não podemos fugir. Podemos continuar, como se tivesse que ser assim, uma existência sem choro nem gargalhadas. Podemos parar, amuar com a vida e sentarmo-nos no chão já cansados de ser.
Mas podemos tomar consciência. Olhar para dentro e perceber onde estão as rochas em que podemos descansar. Parar e contemplar os castelos de areia em que tantas vezes queremos morar esquecendo que as ondas os vêm buscar. E quando percebemos as fraquezas, os enganos, os muros com que delimitámos o mundo em que queremos viver, rimo-nos com vontade.

É na dureza do tempo sem graça que nos encontramos connosco, que nos conhecemos, que podemos re-educar o olhar para a Alegria e perceber que, se há coisa que somos, é cheios de Graça!

quinta-feira, 13 de março de 2008

Amar o Próximo

Diz-se muitas vezes que este é o maior mandamento da lei de Deus. E esta máxima dá lugar a grandes conversas sobre "quem é o próximo". Jesus responde a isto claramente na parábola do Bom Samaritano. De qualquer maneira não é exactamente este o apelo. Não nos é pedido simplesmente que amemos o outro, é-nos pedido que amemos o outro como a nós mesmos, e aí é que está a dificuldade.
Quando alguém se alegra com um sucesso próprio não o acusamos muitas vezes de se estar a gabar? Quando alguém é mesmo feliz por ser quem é, não o julgamos como convencido? Se temos tanta dificuldade em aceitar "os bens" do outro é capaz de ser porque não reconhecemos verdadeiramente o nosso valor e então não resistimos a alguma inveja...
Antes de perdoar o outro, perdoa-te a ti mesmo. Antes de aceitar os defeitos dos outros, aceita as tuas fraquezas. Antes de reconheceres os dons do próximo, reconhece os teus dons. Antes de amar o próximo ama-te a ti mesmo..só assim aquilo que Ele nos pediu fará sentido!

(proposta - livro: o segredo do amor eterno, John Powell, sj)

quarta-feira, 12 de março de 2008

ITHAKA

Quando te puseres a caminho de Itaca,
deseja que a tua viagem seja longa,
cheia de aventura, cheia de conhecimentos.
Nunca tenhas medo de Lestrígones ou de Ciclopes,
nem sequer de um Posídon irascível

Tu não hás-de encontrar tais criaturas no teu caminho
e o teu pensamento será sublime como fino o teu sentimento
pensamento e sentimento que te tocarão no espírito e no teu corpo.

Não encontrarás Lestrígones nem Ciclopes
nem o selvagem Posídon
a não ser se pensares sempre neles
a não ser se a tua alma os tenha posto de pé à tua frente.

Deseja sempre que a tua viagem seja longa;
que por lá passes muitas manhãs de verão
quando com tamanho prazer e tamanha alegria
acostares a portos vistos pela primeira vez

Possas parar em alguns dos mercados finícios
para comprares do melhor que houver
mãe-pérola e coral, âmbar, marfim
perfumes afrodisíacos de toda a espécie
compra tantos perfumes afrodisíacos quantos puderes
Possas tu ir até várias cidades egípcias
para aprender e aprender, na verdade, com aqueles que lá aprenderam

Mas na tua mente Ítaca deve sempre estar.
Chegar lá é a tua principal meta.
Mas não apresses a tua jornada de qualquer maneira.
É melhor que ela dure muitos anos
e que, depois, quando fores velho, acostes finalmente a Ítaca.
Já homem rico com tudo o que tiveres ganhado no caminho,
e não esperando encontrares mais nenhuma riqueza por lá.

Porque Ítaca deu-te a mais querida das viagens.
Sem ela jamais terias partido em direcção a ti.
E não há nada mais que ela te pudesse dar.

E se Ítaca te parecer demasiadamente estreita, não te deixes enganar.
Sábio como te tornaste agora, com a experiência da vida, já deves ter compreendido finalmente o que Ítaca representa.

Autor: Constantino Cavafy Tradução: António de Castro Caeiro

terça-feira, 11 de março de 2008

ESPANTO

O nosso acesso à realidade é sempre mediado por ideias já concebidas, por conhecimentos já adquiridos, por estados de espirito que influenciam a nossa forma de olhar. Não sabemos o que é o olhar da criança, simplesmente não temos memória desse contacto original com o mundo. As coisas são sempre na sua relação connosco, com o nosso ponto de vista. Neste sentido, a surpresa, o espanto, depende mais de nós do que daquilo que se nos apresenta.
Temos o hábito de nos queixarmos da rotina, de procurar constantemente novos desafios, novas sensações, estímulos exteriores que nos façam sentir mais vivos, mas a verdadeira novidade vem de dentro. É na crescente descoberta de mim, no caminho dinâmico do auto-conhecimento que (re)descobrimos o mundo, que podemos viver novas realidades.
Purificar o modo de ver, mudar a prespectiva com que se olha...só assim nos podemos surprender todos os dias e nunca deixar de nos espantar com as maravilhas que o mundo nos oferece.

Aprender a Calar

O ser-se directo ou frontal, o "dizer tudo na cara", a "sinceridade acima de tudo", são, normalmente características apontadas como positivas.
"Aprender a calar" pode ser um bom desafio. mais importante do que dizer tudo ao outro é dizer tudo a nós. Mais importante do que exteriorizar é importante arrumar o interior.
Precisamos tomar consciência do que sentimos, de vontades e desejos. Precisamos discernir opções, distinguir o que é verdadeiro do que é leviano.
O caminho mais fácil é, sem dúvida, "deitar tudo cá para fora", assim não temos que lidar com o que somos, deixamos isso para outros. Mas será isto uma qualidade?
Sentimentos, disposições, apetites, tudo isto nos invade sem autorização. É preciso perceber de onde vêm, e depois está nas nossas mãos definir para onde vão. Só depois de termos a casa arrumada estamos verdadeiramente prontos para deixar outros entrar...deitar a roupa suja pela janela não adianta...

segunda-feira, 10 de março de 2008

DISPOSIÇÕES

Não sabemos que dia fará amanhã. Podemos acordar ao sol, à chuva, num vendaval ou com tanto nevoeiro que não vemos um palmo à frente do nariz. Não sabemos porquê. Não controlamos a metereologia do coração.

São estes estados de espírito que nos assaltam que definem o nosso leque de (im)possibilidades. Aquela atitude que nos permite levar uma vida boa, aquela confiança que nos faz ver cada dia como um novo desafio, essa alegria nem sempre está. Quantas vezes o desânimo, a insegurança e a tristeza nos invadem de tal forma que tudo se torna um fardo, uma fonte de sofrimento.

Será que podemos trancar a porta da alma para que a negatividade não nos assalte? Acho que não. Acho de facto que as disposições não são controláveis mas são, no entanto, constituíntes de possibilidades, impelem-nos para a frente ou dificultam-nos os passos. O que podemos eventualmente definir é o que fazemos com elas. Navegamos num role de sentimentos anónimos, ora na calmaria, ora em plena tempestade, sem qualquer controle sobre o nosso barco ou, pelo contrário, estamos preparados para manter o rumo definido mesmo quando o mar está bravo?

Parece-me um caminho possível...

sexta-feira, 7 de março de 2008

O TEMPO FAVORÁVEL

É a Quaresma. Seja qual for a razão, são sempre boas estas saídas do "tempo comum". Precisamos de paragens, de recomeços. o Tempo não se quer contínuo.
Este é o Tempo favorável, o tempo de deserto, o tempo de (re)encontro, de desprendimento. Gosto sobretudo da ideia de que este é um tempo de "afinar a Liberdade". Não sei se queremos de facto ser livres, mas somos. Possuimos uma liberdade cuja limitação se prende, no facto de não nos podermos descartar dela. Encontramo-nos já a ser. Encontramo-nos já ao volante da vida. Mesmo que não saibamos que estrada seguir...temos a vida nas mãos e disso não podemos fugir. Entregá-la a outrém ou por-lhe termo será sempre, também, um acto livre de desincumbência da vida.
O que nos prende, o que nos condiciona, são tanto factores exteriores como interiores. Como quanto aos primeiros não podemos fazer nada...Este é o tempo favorável para nos libertarmos de nós próprios!

SENTIMENTOS

Os sentimentos são por definição indefiniveis. Ou incomunicáveis. Talvez indemonstráveis.
Não sei...
Os sentimentos são anónimos. Não sabemos como surgem. não controlamos quando surgem. E também nos é alheia a razão porque deixam de nos habitar.
Assentar as nossas relações pessoais em sentimentos é estranho. Se é o sentimento que sustenta a relação então eu não tenho poder nenhum sobre ela!
Uma relação, seja ela qual for, deve basear-se na liberdade. Na minha e na do outro. Em liberdade escolho que rumo tomar, independentemente do que sinto porque isso, aquilo que julgamos dever seguir, não é nosso.

quinta-feira, 6 de março de 2008

É Hoje!

Não sei porquê. Não sei porquê agora. Talvez porque dê por mim cansada..de fazer e de ser.
Há alturas assim, em que o vento parece ser mais forte que nós, e sorrimos na ilusão de que nos vai levar para longe mas, quando abrimos os braços para voar, não saímos do chão.
Dura realidade que nos mostra que é passo a passo que se faz caminho. Às vezes ao Sol, às vezes à chuva mas não há hipótese: viver é daquelas coisas que ninguém pode fazer por nós!